Microagulhas que podem revolucionar a imunoterapia contra o câncer

A imunoterapia contra o câncer baseia-se no aproveitamento do sistema imunológico do próprio organismo para combater tumores; no entanto, a administração eficaz e precisa desses tratamentos ainda representa um grande desafio. Nesse contexto, a liberação transdérmica de fármacos por meio de microagulhas (microneedles, MNs) surge como uma solução minimamente invasiva e promissora.
Uma nova revisão publicada no Glycoscience & Therapy destaca um material inovador para essas microagulhas: os polissacarídeos naturais. Derivados de plantas, animais e microrganismos, esses açúcares — como o ácido hialurônico e a quitosana — apresentam elevada biocompatibilidade e biodegradabilidade, além de possuírem a capacidade de modular ativamente o sistema imunológico.
O diferencial dessa revisão está em posicionar as microagulhas à base de polissacarídeos (PMNs) como uma plataforma terapêutica ativa integrada, e não apenas como carreadores passivos de fármacos. Os autores analisaram como as PMNs atuam simultaneamente como veículos de liberação e como agentes imunomoduladores. Verificou-se que essas microagulhas conseguem transportar uma ampla gama de agentes anticâncer — desde pequenas moléculas e anticorpos até nanopartículas — diretamente para a pele, explorando a rica rede de células imunes presente nesse tecido. Mais do que apenas facilitar a entrega, a própria matriz polissacarídica interage de forma ativa com as células imunológicas, potencializando a resposta terapêutica por meio de um mecanismo de ação dupla.
A revisão também detalha avanços recentes em ciência de materiais, resumindo as relações únicas entre estrutura e atividade dos polissacarídeos, a possibilidade de ajuste fino de suas propriedades físico-químicas e como essas características podem ser exploradas para aprimorar a resistência mecânica, a biocompatibilidade, a biodegradação controlada e a responsividade específica a tumores das microagulhas.
De forma geral, o trabalho destaca três inovações interconectadas na interface entre materiais e dispositivos:
1. Design de dupla função: A bioatividade intrínseca dos polissacarídeos naturais (como as interações da quitosana com células dendríticas) confere efeitos imunomoduladores próprios às PMNs, gerando respostas sinérgicas quando combinadas com agentes anticâncer incorporados.
2. Fronteira da manufatura de precisão: Técnicas avançadas de fabricação, especialmente a impressão 3D, têm papel central na superação das limitações estruturais e funcionais das microagulhas convencionais. Essas abordagens permitem o design racional de arquiteturas de MNs geometricamente personalizadas, com melhor desempenho mecânico, interação tecidual e capacidade de carregamento de fármacos — parâmetros essenciais para aplicações em imunoterapia.
3. Engenharia de responsividade ao microambiente: A revisão sintetiza estratégias para o desenvolvimento de PMNs sensíveis a sinais associados ao tumor, como gradientes de pH ou atividade enzimática, possibilitando a liberação localizada e temporalmente controlada de fármacos. Essa adaptabilidade guiada por materiais representa um avanço conceitual claro em relação a sistemas de microagulhas estáticos e não responsivos.
Em conjunto, essa perspectiva orientada por materiais posiciona as PMNs como uma plataforma versátil e escalável para a próxima geração da imunoterapia contra o câncer, fornecendo bases sólidas para o design racional de sistemas inteligentes de combinação fármaco–dispositivo na oncologia.






