Novos dados científicos sugerem três tipos distintos de TDAH

Pesquisadores que analisaram grandes volumes de dados de neuroimagem e perfis clínicos estão propondo uma nova forma de compreender o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Diferentemente da visão tradicional, que considera o TDAH um único diagnóstico com pequenas variações entre os pacientes, estudos recentes indicam que podem existir três tipos distintos do transtorno, cada um com padrões neurológicos e comportamentais próprios.
Essa descoberta pode representar um avanço importante na compreensão de um transtorno que afeta milhões de crianças e adultos em todo o mundo, impactando a capacidade de manter a atenção, controlar impulsos e organizar tarefas no dia a dia.
O estudo que deu origem a essa nova análise utilizou exames de neuroimagem e medidas de conectividade cerebral para identificar diferenças na organização das redes do cérebro em pessoas com TDAH. Isso permitiu identificar três “biotipos” ou subgrupos neurológicos distintos dentro do espectro do TDAH:
- Biotipo com sintomas graves e desregulação emocional persistente, associado a alterações em regiões como o córtex pré-frontal medial e o paládio.
- Biotipo predominante em hiperatividade e impulsividade, com mudanças marcantes no córtex cingulado anterior e em áreas correlacionadas ao controle motor.
- Biotipo com atenção marcadamente prejudicada, caracterizado por alterações em regiões como o giro frontal superior.
Esses perfis não refletem apenas diferenças comportamentais observadas em avaliações clínicas. Eles também estão associados a padrões neurobiológicos distintos, o que sugere que podem existir mecanismos cerebrais diferentes atuando dentro do mesmo diagnóstico de TDAH.
Tradicionalmente, manuais como o DSM-5 descrevem três apresentações do transtorno — predominantemente desatenta, predominantemente hiperativa-impulsiva e combinada — com base nos sintomas observáveis no comportamento. No entanto, essas classificações são clínicas, ou seja, baseiam-se no que é percebido externamente e não necessariamente em diferenças biológicas profundas.
A nova linha de pesquisa adota outra abordagem. Em vez de se concentrar apenas nos sintomas, ela analisa dados biológicos objetivos, como padrões de conectividade cerebral.
Isso oferece uma perspectiva mais fundamentada na neurociência para explicar por que pessoas com TDAH podem responder de maneira diferente aos tratamentos ou apresentar trajetórias de vida distintas.
Se esses resultados forem confirmados por estudos futuros, com amostras maiores e mais diversas, o modelo dos três biotipos poderá trazer implicações importantes:
- 1. Diagnóstico mais preciso: Profissionais de saúde poderiam usar perfis neurológicos para ir além de simples listas de sintomas e propor diagnósticos mais personalizados, com base nas diferenças biológicas de cada indivíduo.
- 2. Tratamentos personalizados: Alguns biotipos podem responder melhor a certos medicamentos, terapias comportamentais ou intervenções educacionais específicas. Identificar o “tipo” real de TDAH pode ajudar a direcionar intervenções mais eficazes.
- 3. Melhor compreensão do espectro: O reconhecimento de subtipos biológicos ressalta que TDAH é uma condição heterogênea — ou seja, não existe uma explicação única ou um caminho único de tratamento que funcione para todos.
A ideia de que transtornos do neurodesenvolvimento não são condições uniformes vem ganhando força em diferentes áreas da psiquiatria. No caso do autismo, por exemplo, pesquisadores têm utilizado grandes volumes de dados (“big data”) para identificar subtipos clínicos e biológicos dentro do espectro. Esse tipo de abordagem pode abrir caminho para tratamentos mais direcionados também em outras condições neuropsiquiátricas.
Além disso, estudos genéticos de grande escala vêm mostrando que vários transtornos mentais compartilham bases biológicas e características genéticas em comum. Isso indica que a forma tradicional de tratar cada diagnóstico como algo totalmente separado pode ser mais limitada do que se pensava.
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Embora promissoras, essas descobertas ainda precisam de replicação e validação em estudos pluricêntricos e com populações diversas. Questões como como fatores ambientais, idade, gênero e comorbidades interagem com esses biotipos permanecem em aberto.
Os pesquisadores também explicam que essas diferenças biológicas podem não se encaixar em categorias fixas e totalmente separadas. Em vez disso, elas podem estar distribuídas ao longo de um contínuo, como acontece em um espectro. Isso significa que o TDAH pode ser melhor compreendido como algo com diferentes graus e variações, e não apenas como tipos isolados e bem definidos.
O estudo foi publicado na JAMA Psychiatry.






