Durante audiências recentes, altos oficiais das Forças Armadas dos EUA alertaram para a necessidade de repensar a forma como o país encara o espaço: mais do que um recurso estratégico, ele deve ser visto como um possível campo de conflito. A avaliação partiu principalmente do general B. Chance Saltzman, chefe de operações da Força Espacial americana, que apontou avanços significativos da China em tecnologias que podem colocar em risco os interesses espaciais dos EUA.
Segundo Saltzman, Pequim tem se mostrado mais eficaz na aplicação de seus recursos, justamente por estar focada em uma única região — o Pacífico Ocidental — enquanto Washington tenta dar conta de uma agenda global muito mais ampla. “Eles conseguem concentrar seus recursos em todas as capacidades daquela área”, explicou, apontando que esse foco tem tornado a China “tão perigosa e tão rápida”.
O general defendeu que os EUA precisam acelerar o desenvolvimento de suas capacidades espaciais. Segundo ele, existem seis categorias de armas espaciais, e a China já está investindo pesadamente em todas elas — ao contrário dos EUA. Essas categorias se dividem entre armas terrestres e armas espaciais, incluindo tecnologias como energia dirigida, radiofrequência e sistemas cinéticos.
Saltzman criticou o que chamou de uma “política excessivamente restritiva” que ainda trata o espaço como um recurso neutro, e não como um domínio de combate. Para ele, isso está prejudicando a prontidão americana. “Nosso orçamento não cobre o necessário para alcançarmos a superioridade no espaço”, afirmou. “Estamos criticamente subfinanciados em nossa missão mais urgente: controlar o espaço.”

Ele ressaltou que os EUA precisam estar preparados não só para se defender de ataques espaciais, mas também para neutralizar as capacidades inimigas — algo que a China, segundo ele, já está ensaiando. Um exemplo foi a prática de manobras orbitais recentes, interpretadas por Washington como simulações de “combate aéreo” em pleno espaço.
O general Christopher Cavoli, comandante do Comando Europeu dos EUA, também reforçou essa preocupação. Em outra audiência, ele destacou o crescimento da divisão Europa-África da Força Espacial, criada em dezembro de 2023. Desde então, a unidade tem aumentado sua presença nos continentes e aprofundado a cooperação com aliados da OTAN, numa tentativa de criar uma rede espacial interligada capaz de proteger ativos militares e apoiar operações conjuntas.
A corrida, no entanto, não é unilateral. Do outro lado, a China acusa os EUA de militarizarem o espaço e iniciarem uma nova corrida armamentista. Em dezembro, após os EUA ativarem uma unidade espacial na base aérea de Yokota, no Japão, o Ministério da Defesa chinês criticou duramente a medida, alegando que os americanos estavam colocando em risco a segurança global.
“A China sempre defendeu o uso pacífico do espaço”, disse o porta-voz Zhang Xiaogang na ocasião. Para Pequim, é Washington quem está acirrando os ânimos e empurrando o mundo para uma nova era de disputas orbitais.
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Enquanto isso, o programa espacial chinês não para de crescer. Com metas ambiciosas para alcançar a chamada “grande revitalização” até 2049, o presidente Xi Jinping já declarou que quer transformar a China em uma “potência espacial”. Movimentos como o lançamento de múltiplos satélites em formação e avanços em tecnologia orbital só reforçam o clima de tensão crescente — e mostram que o espaço, antes símbolo de exploração pacífica, pode estar se tornando o próximo grande palco de rivalidade entre potências.