Túneis subterrâneos de 1.600 anos são descobertos sob a Hagia Sophia

Em meio às extensas e meticulosas obras de restauração da Hagia Sophia, um dos edifícios mais icônicos do mundo, arqueólogos e especialistas anunciaram a descoberta de uma rede subterrânea de túneis que remontam a aproximadamente 1.600 anos. A revelação, feita oficialmente no final de fevereiro de 2026 pelas autoridades turcas, está proporcionando um olhar raro sobre o amplo e complexo patrimônio histórico sob a superfície de Istambul, capital histórica de dois impérios.
A descoberta foi anunciada por Mehmet Nuri Ersoy, ministro da Cultura e Turismo da Turquia, durante uma visita às instalações de restauração na própria Hagia Sophia. Segundo Ersoy, as equipes que trabalham no projeto de conservação – considerado um dos mais abrangentes na história recente da estrutura – identificaram sete túneis subterrâneos distintos, todos conectados e estendendo-se por centenas de metros sob a famosa basílica.

Os trabalhos na Hagia Sophia começaram como parte de um esforço maior para preservar a integridade estrutural do edifício — que já foi uma catedral cristã, posteriormente uma mesquita e, mais recentemente, um museu e mesquita novamente. A intervenção não se limita à superfície: equipes especializadas estão aplicando análises científicas detalhadas para orientar cada etapa, desde o mapeamento por radar até o uso de materiais históricos apropriados para intervenções restaurativas.
Equipamentos como escadas metálicas, plataformas de aço e sistemas de cobertura temporária foram instalados para proteger as valiosas superfícies internas, incluindo mosaicos antigos, enquanto se remove materiais de restaurações anteriores que não são compatíveis com as técnicas originais de construção bizantina e otomana. Durante esse processo, análises laboratoriais identificaram camadas de materiais construtivos de diferentes períodos históricos, incluindo os reunidos durante o Império Bizantino e, posteriormente, a era otomana.
A parte mais surpreendente e intrigante da restauração são os túneis descobertos sob a estrutura. As equipes de conservação trabalharam em três câmaras subterrâneas na área do jardim oeste e no flanco norte da Hagia Sophia, conectadas a um sistema subterrâneo que, após meses de escavação, revelou túneis históricos interligados.

Durante as escavações realizadas em 2025, mais de 1.000 toneladas de terra foram removidas desses túneis, enquanto uma estrutura funerária subterrânea separada localizada no que é conhecido como o “jardim do Vezir” resultou na remoção de cerca de 102 toneladas de material de preenchimento. Essa estrutura funerária possui um corredor central ladeado por câmaras simétricas — uma configuração comum em hipogeus antigos.
Especialistas sugerem que esses túneis eram parte de um sistema funcional e simbólico ligado à vida religiosa da Hagia Sophia e sua infraestrutura subterrânea, oferecendo pistas únicas sobre como edifícios monumentais bizantinos foram concebidos não apenas como locais de culto, mas como centros complexos de atividades, circulação e talvez até de práticas funerárias.
A descoberta ressalta a rica estratificação histórica de Istambul, onde as camadas do Império Bizantino, seguida pelo domínio otomano, ainda guardam muitos mistérios esperando para serem revelados. Esse tipo de achado não apenas amplia nossa compreensão da engenharia e arquitetura da época, mas também levanta questionamentos sobre a relação entre estruturas visíveis e a rede de suporte e uso que existia abaixo do solo.

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Segundo autoridades, além de fornecer informações valiosas para a conservação da própria Hagia Sophia, esses túneis e espaços subterrâneos poderão ser documentados e analisados detalhadamente para futuras exibições ou pesquisas arqueológicas, embora ainda não haja planos oficiais sobre sua abertura ao público.






