Marcas de 40 mil anos podem ser um precursor da escrita

Pesquisadores de renome internacional descobriram evidências de que sistemas de símbolos usados por humanos há cerca de 40.000 anos possuíam uma complexidade estrutural até então inédita no registro arqueológico — sugerindo que nossos ancestrais já organizavam informações de forma sistemática muito antes das primeiras formas reconhecidas de escrita.
A pesquisa, conduzida pelo linguista Christian Bentz, da Universidade do Sarre, e pela arqueóloga Ewa Dutkiewicz, do Museu de História Pré-histórica de Berlim, analisou detalhadamente centenas de artefatos do período Aurignaciano (aproximadamente entre 43.000 e 34.000 anos atrás), encontrados em cavernas da região hoje situada no sul da Alemanha.
Entre os objetos estudados estão pequenos instrumentos, ferramentas e esculturas esculpidas em marfim, ossos e chifres, muitos adornados com linhas, pontos, cruzes, ziguezagues e outros sinais geométricos. No total, mais de 3.000 marcas individuais foram catalogadas em 260 artefatos e submetidas a uma análise estatística baseada em modelos de teoria da informação e linguística computacional.

Segundo os pesquisadores, os padrões observados nos sinais não são aleatórios. Eles exibem características de repetição e organização que lembram, em termos de densidade de informação, as primeiras formas de proto-escrita conhecidas — como o protocuneiforme da antiga Mesopotâmia, datado de cerca de 5.300 a 5.000 anos atrás.
Os objetos ornamentados mostraram variações consistentes: por exemplo, sequências marcadas em figurinos carregavam uma densidade de informação cerca de 15 % maior do que as encontradas em ferramentas utilitárias. Esse tipo de distribuição sugere que os sinais podiam ter funções específicas e possivelmente compartilhadas socialmente, em vez de serem apenas simples enfeites.

Apesar da complexidade dos padrões, os pesquisadores enfatizam que esses símbolos não representam uma escrita no sentido tradicional — ou seja, um sistema que codifica diretamente a linguagem falada. Até agora, não há evidências de que esses sinais se referissem a palavras ou frases específicas.
“O que vemos são sequências de marcas com propriedades estatísticas que lembram as primeiras formas de escrita, mas sem evidência de que representem fala humana”, explicou Bentz, ressaltando a relevância desses sinais como um possível “precursor” dos sistemas de escrita.
Essa distinção é crucial: enquanto a escrita emergiu formalmente em civilizações complexas da Mesopotâmia e do Egito há cerca de 5.000 anos, as marcas paleolíticas parecem ter servido para estruturar e armazenar informação de maneira compartilhada, sem necessariamente representar uma língua codificada.

A descoberta abre novas perspectivas sobre a evolução da cognição e da comunicação humana. A presença de símbolos sistemáticos entre grupos de caçadores-coletores do Paleolítico sugere que a capacidade de criar sistemas de representação gráfica complexos — e de compartilhá-los socialmente — pode ser muito mais antiga do que se acreditava.
Especialistas independentes, como a paleoantropóloga Genevieve von Petzinger, destacam que, embora seja difícil decifrar o conteúdo exato dos sinais, os métodos estatísticos utilizados são uma forma robusta de inferir que esses sinais eram intencionais e não decorativos. Isso indica que os humanos pré-históricos já dominavam alguma forma sofisticada de comunicação visual muito antes de civilizações históricas terem desenvolvido escrita plena.
Os pesquisadores ressaltam que interpretar essas marcas é um desafio — muitos artefatos semelhantes podem ter se perdido ao longo de milênios. No entanto, a análise atual lança luz sobre uma etapa pouco compreendida da história humana: a transição de simples ornamentações para sistemas estruturados de sinais que, muito tempo depois, evoluiriam para alfabetos e scripts.
A pesquisa está publicada na Proceedings of the National Academy of Sciences






