A cirurgia de mandíbula mais antiga do mundo

Cientistas russos identificaram evidências surpreendentes de uma cirurgia sofisticada realizada há cerca de 2.500 anos em uma mulher pertencente à antiga cultura nômade Pazyryk, no sul da Sibéria. A descoberta foi feita após uma análise detalhada do crânio da mulher usando tomografia computadorizada, revelando que ela sobreviveu a uma grave lesão na mandíbula graças a uma intervenção cirúrgica inédita para a época.
A pesquisa foi conduzida por especialistas da Universidade Estatal de Novosibirsk (NSU), na Rússia. Os resultados indicam que médicos da antiguidade realizaram uma espécie de “prótese primitiva” na articulação da mandíbula, permitindo que a paciente voltasse a falar e se alimentar.
O crânio pertence a uma mulher que viveu aproximadamente entre os séculos VI e III a.C., período associado à cultura Pazyryk, integrante do mundo cita-siberiano da Idade do Ferro. A análise foi possível graças ao uso de tomografia computadorizada de alta resolução.

Segundo o pesquisador Vladimir Kanygin, chefe do Laboratório de Medicina Nuclear e Inovadora da universidade, a tecnologia permitiu “remover virtualmente” os tecidos moles mumificados que impediam o estudo da estrutura óssea.
“A tomografia funcionou como uma verdadeira máquina do tempo. Ela nos permitiu examinar o crânio sem danificá-lo e criar um modelo digital tridimensional extremamente preciso”, explicou o cientista.
Com base em 551 cortes tomográficos, os pesquisadores reconstruíram digitalmente o crânio e identificaram sinais claros de trauma e intervenção cirúrgica.
As imagens revelaram que a mulher sofreu um impacto violento na lateral direita do crânio, que afundou o osso temporal entre 6 e 8 milímetros. A pancada destruiu a articulação temporomandibular direita — responsável pelos movimentos da mandíbula.
Essa lesão teria tornado impossível falar ou mastigar alimentos. Em condições normais da antiguidade, isso provavelmente levaria à morte por fome ou infecção.
Mas o exame revelou algo inesperado.
Os pesquisadores encontraram dois pequenos canais perfurados no osso, cada um com cerca de 1,5 milímetro de diâmetro. Um deles atravessava a cabeça da mandíbula e o outro o processo zigomático do osso temporal.
Esses canais se encontravam em ângulo reto, formando uma estrutura planejada.
Dentro dos orifícios foram detectados restos de material elástico — provavelmente tendão animal ou crina de cavalo — que funcionava como uma espécie de ligadura cirúrgica.
O radiologista Andrey Letyagin explicou que esse material mantinha a articulação estabilizada:
“Essa prótese primitiva mantinha as superfícies articulares unidas e permitia que a paciente movimentasse a mandíbula.”
Embora a mulher provavelmente ainda sentisse dor e não pudesse mastigar do lado lesionado, o procedimento foi suficiente para salvar sua vida.
Uma das evidências mais impressionantes do estudo é que os ossos ao redor dos furos cicatrizaram. A tomografia mostrou um anel de tecido ósseo formado ao redor dos canais perfurados, sinal claro de que a cirurgia ocorreu enquanto a mulher ainda estava viva.
Além disso, os dentes do lado esquerdo da mandíbula estavam extremamente desgastados, indicando que ela mastigou por bastante tempo apenas desse lado após a operação.
Isso sugere que a paciente viveu meses ou até anos depois da cirurgia.

Os restos mortais foram descobertos em 1994 em um cemitério arqueológico chamado Verkh-Kaljin-2, localizado no remoto Planalto de Ukok, nas montanhas Altai, região da atual República de Altai na Rússia.
A escavação foi conduzida pelo arqueólogo Vyacheslav Molodin.
O local pertence à chamada Cultura Pazyryk, conhecida por seus túmulos congelados em permafrost que preservam artefatos orgânicos, roupas, objetos de madeira e até múmias.
A mulher foi encontrada em um sarcófago de madeira de larício, deitada de lado em posição semelhante à de alguém dormindo.
Curiosamente, o túmulo não continha objetos funerários — algo incomum para essa cultura — exceto por uma peruca típica usada por mulheres Pazyryk.
Para os pesquisadores, a descoberta demonstra que os povos Pazyryk possuíam conhecimentos médicos surpreendentemente avançados.
De acordo com a arqueóloga Natalia Polosmak, que participou do estudo, esses povos já realizavam trepanações cranianas e possuíam profundo conhecimento da anatomia humana.
Ela acredita que a prática cultural de mumificação pode ter ajudado no desenvolvimento dessas habilidades médicas, pois exigia manipulação detalhada do corpo humano.
Os Pazyryk também eram artesãos extremamente habilidosos. Suas roupas de couro eram costuradas com até 20 pontos por centímetro, feitos com fios finos de tendão animal — uma destreza manual comparável à necessária para cirurgias delicadas.
Os cientistas não sabem exatamente como a mulher sofreu a lesão, mas sugerem algumas hipóteses:
- queda de cavalo em alta velocidade
- queda de grande altura
- impacto violento durante atividades cotidianas
Cavalos eram centrais na vida Pazyryk, o que torna acidentes desse tipo relativamente plausíveis.
Embora seja apenas um caso isolado, o achado oferece novas evidências de que sociedades nômades da Antiguidade possuíam tecnologias médicas mais sofisticadas do que se imaginava.
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Em vez da imagem tradicional de guerreiros bárbaros, os Pazyryk aparecem cada vez mais como uma sociedade complexa, com artistas, artesãos e até cirurgiões habilidosos.
A análise do crânio mostra que, para aquela jovem mulher de cerca de 25 a 30 anos, a engenhosidade médica de seu povo fez literalmente a diferença entre vida e morte.






