Rios do mundo perdem oxigênio em ritmo acelerado

Rios ao redor do planeta estão perdendo oxigênio dissolvido de forma consistente, com mudanças climáticas identificadas como principal responsável pelo fenômeno. Uma análise global abrangente de mais de 21 mil sistemas fluviais revelou que aproximadamente 80% deles apresentam declínio contínuo de oxigênio nas últimas quatro décadas, ameaçando populações de peixes, biodiversidade e a saúde geral dos ecossistemas de água doce. O estudo, publicado em maio de 2026 na revista Science Advances, foi coordenado pelo professor Kun Shi do Instituto de Geografia e Limnologia de Nanjing (NIGLAS) da Academia Chinesa de Ciências.
Análise global revela declínio de oxigênio dissolvido em 78% dos rios
A pesquisa utilizou um algoritmo de aprendizado de máquina para analisar observações coletadas entre 1985 e 2023 em 21.439 trechos de rios distribuídos globalmente. Os resultados demonstram uma tendência clara: os níveis de oxigênio nos rios declinaram em média -0,045 mg L⁻¹ por década, com 78,8% dos rios analisados apresentando sinais de desoxigenação. O oxigênio dissolvido desempenha papel fundamental na manutenção de ecossistemas fluviais saudáveis, sustentando organismos aquáticos, promovendo biodiversidade e influenciando processos biogeoquímicos essenciais. Quando os níveis caem, a saúde dos rios se deteriora, colocando em risco peixes e outras espécies de água doce. Confira os detalhes da pesquisa completa.
Rios tropicais sofrem maior impacto apesar de expectativas anteriores
Os maiores decréscimos de oxigênio foram identificados em rios tropicais localizados entre 20°S e 20°N, incluindo cursos d’água na Índia. Este resultado surpreendeu os pesquisadores, pois estudos anteriores apontavam que rios em latitudes mais altas, onde o aquecimento é frequentemente mais intenso, enfrentariam os maiores riscos de desoxigenação. Na prática, rios tropicais já apresentam naturalmente concentrações de oxigênio mais baixas, tornando-se particularmente vulneráveis quando os níveis continuam a cair. Combinado com taxas de desoxigenação mais rápidas, essas condições aumentam significativamente a probabilidade de eventos de hipóxia, quando o oxigênio se torna escasso demais para sustentar muitas formas de vida aquática.
Aquecimento climático e ondas de calor são principais responsáveis
A análise detalhada dos fatores causadores identificou o declínio da solubilidade do oxigênio causado pelo aquecimento climático como o principal condutor da perda global de oxigênio, responsável por 62,7% das mudanças observadas. O metabolismo do ecossistema, influenciado por temperatura, luz e fluxo de água, contribuiu com 12% da desoxigenação. Os pesquisadores também investigaram o papel específico das ondas de calor, que responderam por 22,7% da desoxigenação fluvial global. Esses eventos extremos aumentaram a taxa de desoxigenação em 0,01 mg L⁻¹ por década em comparação com condições climáticas médias. Os achados destacam o impacto crescente do aquecimento climático em ecossistemas fluviais, também conhecidos como ecossistemas lóticos.
Fluxo de água e represas afetam taxas de desoxigenação de formas distintas
A investigação também examinou como padrões de fluxo fluvial e represamento de água influenciam o declínio de oxigênio. Tanto condições de baixo fluxo quanto de alto fluxo mostraram-se capazes de reduzir parcialmente a desoxigenação em comparação com condições de fluxo normal. Rios com baixo fluxo apresentaram taxa de desoxigenação 18,6% menor, enquanto condições de alto fluxo associaram-se a redução de 7,0%. O represamento produziu efeitos distintos conforme a profundidade do reservatório. Em reservatórios rasos, o represamento acelerou a perda de oxigênio. Já em reservatórios mais profundos, ajudou a reduzir a desoxigenação na área represada.
Os pesquisadores ressaltam que rios tropicais devem ser considerados prioridade máxima para esforços de mitigação destinados a prevenir o agravamento da depleção de oxigênio. O estudo fornece fundamento científico que formuladores de políticas podem utilizar ao desenvolver estratégias para enfrentar a desoxigenação fluvial em escala mundial, representando um passo crucial na proteção dos ecossistemas de água doce do planeta.






