Marcas em ossos de 1,6 milhão de anos revelam processamento de carne

Marcas de corte em ossos com cerca de 1,6 milhão de anos encontrados no norte do Quênia indicam que os primeiros humanos transportavam e processavam carne de forma planejada, segundo um estudo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences. A pesquisa reforça a hipótese de que esses grupos não atuavam apenas como necrófagos ocasionais, mas seguiam estratégias consistentes de obtenção de alimento.
O trabalho analisou fósseis animais do sítio arqueológico FwJj 80, localizado na Formação Koobi Fora, uma das regiões mais importantes para o estudo da evolução humana no leste da África. O local preserva vestígios de hominíneos, animais e antigos ambientes do período Plio-Pleistoceno.

Os pesquisadores examinaram mais de mil ossos fósseis, principalmente de antílopes e outros animais herbívoros. Com auxílio de ampliação microscópica, a equipe identificou pequenas marcas produzidas por ferramentas de pedra e impactos de martelos de pedra usados no abate e no processamento das carcaças.
As marcas de dentes de carnívoros apareceram com menor frequência, sugerindo participação limitada de predadores na modificação dos restos encontrados.
Os cortes mais evidentes estavam concentrados nos ossos das pernas, áreas que concentravam grande quantidade de carne. Segundo os autores, isso indica que os hominíneos tiveram acesso precoce às carcaças, antes que grandes carnívoros consumissem os animais.

Os pesquisadores também encontraram ossos longos quebrados com sinais de impacto associados à extração de medula óssea. A medula representava uma fonte concentrada de gordura e calorias, considerada importante para suprir as demandas energéticas do gênero Homo durante a expansão do cérebro ao longo da evolução.
A composição do conjunto fóssil também trouxe pistas sobre o comportamento desses grupos. Ossos das pernas eram muito mais frequentes do que crânios, costelas e vértebras. Para os cientistas, isso sugere que os animais não eram consumidos no local da morte. Em vez disso, partes mais nutritivas eram selecionadas e transportadas para outros ambientes.
A equipe propõe que os hominíneos levavam os melhores cortes para áreas mais seguras, possivelmente próximas a rios ou vegetação densa, reduzindo o risco de confronto com grandes predadores enquanto processavam o alimento.

O sítio FwJj 80 pertence ao membro KBS da Formação Koobi Fora, datado entre cerca de 1,87 milhão e 1,56 milhão de anos. Embora a região já tenha fornecido fósseis importantes de hominíneos, camadas anteriores desse período raramente preservaram conjuntos de ossos suficientemente completos para análises detalhadas de açougueamento e transporte de carne.
Os resultados apresentam semelhanças com evidências encontradas em depósitos mais recentes da mesma região, especialmente no chamado membro Okote, datado entre 1,56 milhão e 1,38 milhão de anos. Em ambos os casos, aparecem padrões semelhantes de acesso precoce às carcaças, transporte de membros e extração de medula.
Os pesquisadores também compararam FwJj 80 com outros dois sítios arqueológicos do leste africano: FLK Zinj, na Tanzania, com cerca de 1,84 milhão de anos, e Kanjera South, no Kenya, datado de aproximadamente 2 milhões de anos. Apesar das diferenças ambientais entre as regiões, os primeiros humanos repetiam estratégias parecidas de obtenção e processamento de alimentos.
Na época, Koobi Fora reunia áreas abertas de savana e regiões úmidas com vegetação densa. A permanência desses comportamentos em ambientes distintos sugere que o Homo primitivo desenvolveu uma estratégia alimentar estável, mas adaptável às mudanças da paisagem africana antiga.
Segundo os autores, o acesso frequente à carne e à medula pode ter contribuído para transformações importantes na evolução humana, oferecendo calorias de alta qualidade e favorecendo formas mais organizadas de cooperação e compartilhamento de alimentos.






