Descoberta de sinos de cobre revela rituais incas na Bolívia

Uma equipe de arqueólogos descobriu no Vale de Oroncota, na Bolívia, um altar com seis sinos de cobre em forma piramidal, datados de mais de 500 anos. O achado, que inclui amuletos de pedra e caracóis terrestres, evidencia a importância da música metálica nas cerimônias agrárias do povo Yampara e sua conexão com o submundo.
Descoberta arqueológica no Vale de Oroncota
Os sinos foram encontrados em um antigo armazém de grãos, em um assentamento da elite local Yampara, durante escavações lideradas pelos arqueólogos Sonia Alconini e Walter Sánchez-Canedo. O local, conhecido como Yoroma, foi habitado durante o período Inca (1400-1532 d.C.) e é descrito em crônicas como habitado por ‘índios de arco e flecha’. Os pesquisadores identificaram um depósito ritual cuidadosamente organizado, onde os sinos estavam dispostos em grupos musicais.

Importância dos sinos na cultura Yampara
Os sinos de cobre não eram meros adornos, mas instrumentos musicais projetados para produzir sons metálicos. Cada sino possuía um tipo específico de batente, incluindo figuras femininas e objetos de pedras semipreciosas. A disposição dos sinos em grupos distintos sugere uma intenção ritual, possivelmente relacionada a celebrações que ainda ocorrem nas comunidades de Tarabuco e Jalqa, onde dançarinos utilizam sinos para ‘despertar’ a terra e dar boas-vindas à colheita.

Análise técnica dos instrumentos musicais
Análises químicas realizadas com fluorescência de raios X portátil revelaram que os sinos eram feitos de uma liga de cobre (92-96%) e estanho (2-5%), com vestígios de arsênio, níquel e ferro. Essa composição, conhecida como bronze de estanho, conferia maior durabilidade e brilho aos instrumentos. Os metalúrgicos da época eram capazes de atingir temperaturas entre 1000 e 1100 °C para derreter o cobre, seguido de um processo de recozimento a 600-700 °C antes de moldar os sinos.

Significado ritual dos sinos na agricultura
Os pesquisadores sugerem que o depósito ritual estava ligado a cerimônias agrárias voltadas para a reprodução das colheitas. A colocação dos sinos dentro de um armazém de grãos, ou qollqas, não foi acidental, pois esses espaços eram considerados sagrados. A inclusão de instrumentos musicais e amuletos visava garantir abundância e fertilidade nas colheitas futuras. O conopa, uma figura de milho esculpida em granito, representa Saramama, a deusa da fertilidade que ainda é venerada nas comunidades andinas.
A descoberta no Vale de Oroncota não apenas revela a sofisticação musical das culturas pré-hispânicas, mas também estabelece uma conexão direta com as tradições que perduram até os dias atuais, ressaltando a importância dos rituais na vida agrária das comunidades andinas.






